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Home / Blog / Cannabis medicinal no Brasil: o que mudou, para quais doenças é indicada e os desafios que ainda precisam ser resolvidos 

Cannabis medicinal no Brasil: o que mudou, para quais doenças é indicada e os desafios que ainda precisam ser resolvidos 

Yasmin Yasmin
Tempo de leitura: 9 minutos
Cannabis medicinal no Brasil: o que mudou, para quais doenças é indicada e os desafios que ainda precisam ser resolvidos 
Publicado em 18.09.2026 Atualizado em 18.09.2026 às 14:09

A Cannabis medicinal ganhou novas regras no Brasil em 2026, entenda para quais doenças é indicada e o que a ciência diz sobre a substância. 

A cannabis medicinal entrou em uma nova fase no Brasil com as resoluções RDC nº 1.012/2026 e nº 1.013/2026 da Anvisa, que passaram a valer em 4 de agosto de 2026, regulamentando o cultivo controlado da Cannabis sativa em território nacional para fins medicinais, farmacêuticos e de pesquisa, inaugurando um marco normativo que o setor aguardava há anos. Para quem acompanha o avanço dos tratamentos à base de canabinoides no país, a mudança representa muito mais do que uma atualização burocrática: é o reconhecimento oficial de que esse mercado chegou para ficar.

O que é a cannabis medicinal e como ela age no organismo

A cannabis medicinal refere-se ao uso terapêutico de compostos extraídos da planta Cannabis sativa, principalmente o canabidiol (CBD) e o tetrahidrocanabinol (THC). O CBD é não psicoativo e está associado à maioria das aplicações clínicas aprovadas. O THC, responsável pelos efeitos psicoativos, também tem indicações médicas específicas, mas seu uso é mais restrito e moderado.

Os dois compostos interagem com o sistema endocanabinoide, uma rede de receptores presente no cérebro, nos órgãos e no sistema imunológico, responsável por regular funções como dor, humor, sono e inflamação. Essa interação é o que explica o potencial terapêutico da planta em condições tão distintas.

Para quais doenças a cannabis medicinal tem indicação?

As aplicações com evidência científica mais robusta envolvem condições neurológicas e de dor crônica. Segundo revisão publicada no JAMA em 2026, assinada por especialistas em psiquiatria, neurologia e medicina, as indicações com suporte clínico mais sólido incluem:

— Epilepsias refratárias: é a indicação com maior respaldo científico. O FDA americano aprovou o Epidiolex, medicamento à base de CBD, para tratar convulsões associadas à Síndrome de Dravet e à Síndrome de Lennox-Gastaut em crianças. No Brasil, o CBD para epilepsia grave é uma das opções autorizadas pela Anvisa;
— Dor crônica: relatórios da OMS e da Academia Nacional de Ciências dos EUA apontam evidência moderada a robusta para o uso de canabinoides no manejo de dores neuropáticas, aquelas associadas a lesões nervosas, com melhora nos índices de dor e qualidade do sono;
— Esclerose múltipla: um spray à base de THC e CBD está autorizado no Brasil e em outros países para tratamento da espasticidade associada à doença;
— Náuseas e vômitos em quimioterapia: o THC demonstrou eficácia no controle desses sintomas, ajudando as pessoas a tolerarem melhor os tratamentos oncológicos.

Desde junho de 2025, a Anvisa ampliou a lista de condições para uso autorizado, incluindo fibromialgia, transtornos neurodegenerativos e autismo. No entanto, especialistas alertam que, para essas indicações mais recentes, as evidências ainda são consideradas promissoras, mas dependem de mais estudos clínicos monitorados antes de se tornarem recomendações consolidadas.

O que a ciência ainda não comprovou

É importante separar o que tem respaldo científico do que ainda está em investigação, pois condições como Alzheimer, Parkinson e alguns transtornos psiquiátricos aparecem em estudos observacionais e relatos clínicos, mas ainda não contam com ensaios clínicos de alta qualidade que sustentem uma recomendação ampla. A popularização avançou mais rápido do que a evidência e profissionais de saúde e pacientes precisam estar atentos a essa diferença.

Como o mundo trata a cannabis medicinal: um panorama global

O Brasil não está sozinho nesse movimento, mais de 50 países já autorizaram alguma forma de uso medicinal da planta, com modelos regulatórios que variam bastante entre si. 

— Canadá — referência global desde 2001, quando legalizou o uso medicinal. Em 2018, ampliou para uso adulto e hoje tem um dos mercados mais estruturados do mundo, com cadeia de produção, distribuição e controle de qualidade consolidados;
— Estados Unidos — em dezembro de 2025, o presidente Trump assinou ordem executiva reconhecendo oficialmente o valor terapêutico da cannabis, reclassificando-a de Schedule I para Schedule III. Em abril de 2026, o Medicare lançou programa piloto permitindo que idosos acessem CBD derivado de cânhamo gratuitamente;
— Uruguai — pioneiro na América do Sul desde 2013, exporta produtos à base de cannabis, inclusive para o Brasil;
— Argentina — uso medicinal permitido desde 2017, com legislação ampliada em 2020 para incluir autocultivo e venda legalizada;
— Reino Unido — autorizou o uso medicinal em 2018, com acesso restrito a medicamentos aprovados pelo NICE, como o Sativex.

O Brasil, que liberou o uso medicinal pela primeira vez em 2015, vive agora uma fase de maturidade regulatória e as novas resoluções de agosto de 2026 representam o passo mais significativo nessa trajetória.

O que mudou com as novas regras da Anvisa em 2026

Antes das novas resoluções, toda a cannabis medicinal consumida no Brasil era importada ou produzida por farmácias de manipulação a partir de insumos estrangeiros. O cultivo em território nacional era proibido para fins comerciais.

Com a RDC nº 1.012/2026 e a RDC nº 1.013/2026, o cenário muda. Empresas, universidades, institutos de pesquisa e associações de pacientes autorizados pela Anvisa podem produzir a Cannabis sativa de forma controlada, com teor de THC igual ou inferior a 0,3% para fins medicinais e farmacêuticos, e concentrações mais altas para pesquisa científica.

Na prática, isso significa menor dependência de importações, potencial redução de preços e ampliação da oferta de produtos. A autorização para que farmácias de manipulação usem o canabidiol como substância farmacêutica ativa (IFA), com possibilidade de redução de até 50% no custo dos tratamentos, deve acelerar o acesso de quem hoje não consegue arcar com os preços dos produtos importados.

Um mercado que já vale quase R$ 1 bilhão

O setor de cannabis medicinal no Brasil fechou 2025 com faturamento de R$ 970,9 milhões, segundo o Anuário da Cannabis Medicinal da Kaya Mind. A projeção para 2026 é superar a marca de R$ 1 bilhão e estudos indicam que o potencial total do setor pode chegar a R$ 9,5 bilhões caso barreiras de acesso, custo e estigma sejam progressivamente superadas.

O desafio que o debate público ainda não alcançou: a logística

Regulamentar o cultivo e ampliar o acesso são conquistas fundamentais, mas há uma etapa crítica entre a produção da cannabis e o consumidor que raramente aparece nas discussões: a cadeia de distribuição.

As novas resoluções da Anvisa são explícitas nesse ponto, determinam sistemas permanentes de monitoramento, rastreabilidade completa e gerenciamento rígido em todas as etapas do transporte. Isso representa uma mudança significativa em relação ao modelo atual, em que grande parte dos insumos ainda circula por serviços de entrega expressa ou pelos Correios, sem infraestrutura especializada.

É nesse elo que atua a Temp Log, única operadora de cadeia fria do Brasil especializada no transporte de produtos para a saúde, há três anos presente no segmento de cannabis medicinal. Para Ricardo Canteras, diretor Comercial e de Operações da empresa, o novo marco na legislação é um divisor de águas e também um alerta para o setor.

“O avanço das normas é muito positivo, mas ele traz consigo um nível de exigência que o nicho ainda não está preparado para atender em escala: a rastreabilidade e o controle rigoroso em cada etapa da distribuição. O fármaco não é diferente de qualquer outro, ele precisa chegar ao paciente com a mesma garantia de origem, qualidade e integridade”, afirma.

A conexão com as farmácias magistrais

A expansão das farmácias de manipulação no segmento também amplia a equação logística. Com a autorização para produzir formulações à base de CBD como IFA, cresce a busca por parceiros habilitados a fazer o transporte dessas preparações que, assim como outros injetáveis e fitoterápicos personalizados, exigem fiscalização de temperatura, acondicionamento adequado e documentação sanitária em todo o percurso.

“Vimos o mesmo movimento com as farmácias magistrais que passaram a manipular tirzepatida: o setor cresceu rapidamente, a demanda por transporte especializado explodiu, e quem não estava preparado ficou para trás. Com a cannabis medicinal, a janela de preparação está aberta agora e as empresas que estruturarem o fluxo logístico com antecedência sairão na frente”, analisa Canteras.

O que esperar dos próximos meses

O mercado de cannabis medicinal no Brasil está em um ponto de inflexão. A liberação do cultivo nacional, a ampliação das farmácias magistrais e o crescimento da prescrição médica devem acelerar o volume de insumos em circulação e, com isso, a pressão por uma cadeia de distribuição à altura das exigências sanitárias.

Para quem faz uso, a boa notícia é o acesso mais amplo e preços potencialmente mais acessíveis. Para o setor, o recado das novas regras é claro: conformidade regulatória deixou de ser diferencial e passou a ser condição para operar em todas as etapas, da produção à entrega.

Quer saber mais sobre como funciona a cadeia de distribuição de medicamentos sensíveis e quais são os cuidados que garantem a integridade do produto até o paciente? Continue acompanhando o blog da Temp Log.

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